Flip 2026: Celebrando vozes femininas, de Orides Fontela a Angela Davis

Após dois anos consecutivos dedicados a homenagens a autores masculinos, a Flip 2026, Festa Literária Internacional de Paraty, volta seu foco para a força das mulheres na literatura e presta uma homenagem à poeta paulista Orides Fontela (1940-1998), cuja produção ainda é relativamente desconhecida fora do meio acadêmico.

A escolha se justifica: apesar de ter sido elogiada desde o início de sua trajetória por críticos e estudiosos como Antonio Candido e Marilena Chaui, Orides era considerada uma figura difícil e “problemática”. Esse estigma, exacerbado pelo machismo estrutural, contribuiu para que sua obra ficasse em um certo esquecimento. Afinal, ser considerada difícil sempre foi um privilégio reservado apenas aos homens.

“A homenagem a Orides Fontela é uma oportunidade rica e fascinante”, comenta Rita Palmeira, curadora da Flip. Segundo Andréa del Fuego, também participante do evento, “Ela é uma poeta de enorme relevância, agora tendo a chance de se inserir no dinâmico cenário da literatura contemporânea, destacando as vozes femininas de escritoras, poetas e pensadoras”. Andréa ainda ressalta: “Identifico-me com a secura da poesia dela, que utiliza poucos elementos, mas que são muito densos. Como diz um verso de ‘Revelação’, ‘a porta está aberta, como se hoje fosse a infância’.”

Explore as autoras em destaque na Flip 2026 e escolha seu próximo livro favorito. Lembre-se que as mesas podem ser acompanhadas online:

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Foto: Fritz Nagib


Orides Fontela

Premiada com o Jabuti em 1983 pela obra Alba, Orides é hoje considerada uma das mais significativas vozes da poesia brasileira na segunda metade do século XX, embora não tenha recebido o reconhecimento merecido em vida. Faleceu sozinha em 1998, aos 58 anos, devido à tuberculose e enfrentou dificuldades emocionais e financeiras ao longo de sua existência. Com formação em filosofia, era uma leitora ávida e reclusa que incorporava várias influências literárias em seus textos. Sua escrita se destaca pela concisão e pela secura – características menos comuns na época em que viveu. Sua poesia reflete reminiscências de sua vida pessoal e suas batalhas internas entre tristeza e esperança por salvação.

“Tudo
será difícil de dizer:
A palavra real
Nunca é suave.

Tudo será duro:
Luz impiedosa
Excessiva vivência
Consciência demais do ser.

Tudo será
Capaz de ferir. Será
Agressivamente real/
Tão real que nos despedaça (…)” 

Aproveite a oportunidade oferecida pela Flip para adquirir os livros da poeta, agora relançados pela Editora Hedra. 


Foto: Elena Vizzoca/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Zadie Smith

Diferentemente de Orides, Zadie é um fenômeno no mercado editorial e reconhecida como uma das vozes mais relevantes de sua geração. Seu primeiro livro,Dentes brancos (2000), lançado quando tinha apenas 24 anos, vendeu 1,5 milhão de cópias nos países anglófonos. Classificada pela revista Granta como uma das vinte melhores escritoras britânicas contemporâneas e indicada ao Booker Prize três vezes, Zadie tem raízes inglesas e jamaicanas e já publicou obras no Brasil através da Companhia das Letras. Seus escritos combinam ficção com ensaios e entrevistas abordando temas atuais como as consequências do imperialismo (A Fraude) e as nuances multiculturalistas na Inglaterra moderna (Dentes brancos).

Lembrando: Zadie participou da campanha da Bottega Veneta em 2025 que comemorou os 50 anos do intrecciato (trançado característico da marca) e colaborou no álbum mais recente de Blood Orange, Essex honey (2025).

No evento Flip, ela integrará a mesa 18 (“E este chão não existe, e esta paz é vertigem”), marcada para sábado (25.07), às 19h; Juliana Borges fará a mediação enquanto discutirem temas presentes em sua obra como colonialismo, imigração e racismo.


Foto: Frederick M. Brown/Getty Images

Angela Davis

A filósofa e ativista norte-americana Angela Davis é um nome essencial quando se fala sobre o feminismo negro. Para quem deseja iniciar essa jornada (e aprendizado) por meio de sua obra, Mulheres, raça e classe (1981), publicado no Brasil apenas em 2016 pela Boitempo com prefácio assinado por Djamila Ribeiro, é um excelente ponto de partida. Pela primeira vez na programação principal da Flip aos 82 anos, Angela participará da mesa “América e África: uma conversa Atlântica” junto com Wole Soyinka (Nobel de Literatura) e Flávia Oliveira no sábado (25.07), às 18h, na Casa Sesc.

Davis é uma referência global na luta pelos direitos humanos; integrou o Partido dos Panteras Negras nos anos 70 antes de ser presa. Essa será sua estreia na Flip.

Cabe destacar que durante uma visita ao Brasil, Angela prestou homenagem à brasileira Lélia Gonzalez – outra figura importante do feminismo negro – questionando o público: “Por que vocês precisam olhar para os Estados Unidos? Eu aprendi muito mais com Lélia Gonzalez do que vocês aprenderam comigo”.

Cármen Lúcia em ensaio para a ELLE View.
Foto: Hudson Rennan

Cármen Lúcia

Sendo a única mulher no STF e uma das figuras proeminentes do judiciário brasileiro, Cármen estará presente em Paraty tanto nas mesas oficiais quanto nas discussões informais ao longo da programação da Flip. Na sexta-feira (24.07), ela participará de um diálogo com Paula Miraglia às 13h30 na mesa “Estado de sítio, estado de sido, estase”, onde tratará sobre democracia e autoritarismo – temas relevantes para a ministra. Este ano ela também republicará seu livro Pela mão do povo: democracia e voto no Brasil (Bazar do Tempo). Outro debate importante ocorrerá na Casa Sesc onde abordará questões sobre inteligência artificial e direitos autorais (Cármen já presidiu o Tribunal Superior Eleitoral).

Cabe lembrar que Cármen foi capa da edição especial da ELLE View em dezembro de 2025 dedicada a mulheres que impactam o mundo; nessa edição ela refletiu sobre sua trajetória pessoal ligada à literatura além dos desafios relacionados ao feminicídio. 

Andréa del Fuego.
Foto: Renato Parada

Andréa del Fuego

Nascida em São Paulo e mestre em filosofia pela USP, Andréa consegue transitar entre crítica literária e público com grande habilidade – sendo reconhecida como uma das principais escritoras contemporâneas brasileiras. Com seu romance inaugural, Os Malaquias (2010), ganhou o Prêmio José Saramago; já com A pediatra (2021), conquistou popularidade ao narrar as desventuras de Cecília – possivelmente a pior pediatra da literatura moderna – história esta adaptada para o teatro e atualmente sendo desenvolvida para o cinema. Entre suas obras notáveis estão também os minicontos reunidos em Nego tudo: ficções súbitas (republicado em 2025), exemplificando bem seu talento para síntese.

No evento deste ano ela fará parte da mesa 4 intitulada Mas para que serve o pássaro? O pássaro não serve,” a ser realizada juntamente com Paulliny Tort sob mediação de Micheline Alves nesta quinta-feira (23.07) às 15h; além desta participação oficial ela estará envolvida em vários debates paralelos incluindo um promovido pela CasaDELAS – projeto liderado por outra renomada escritora brasileira Vera Iaconelli. 

Cabe lembrar que Andréa nasceu Andrea Fátima dos Santos; criou seu pseudônimo “del Fuego” enquanto respondia perguntas sobre sexualidade na Rádio 89 FM antes mesmo de imaginar publicar um livro.


Foto: Humberto Brito

Djaimilia Pereira de Almeida

A escritora angolana Djaimilia está confirmada na mesa oficial número seis intitulada “Falo do que impede o sono”, trazendo consigo um estilo lírico forte presente nas suas obras como O livro do meu pai (2025), onde aborda luto, memória colonialista e pertencimento simultaneamente. Também é autora do premiado A visão das plantas , vencedor do Prêmio Oceanos 2020,e de O que é ser uma escritora negra hoje,de acordo comigo (2023), onde realiza reflexões críticas sobre seu lugar no mundo misturando ensaio cultural com toques pessoais: “Fosse há cinquenta anos atrás você estaria onde está? Sendo premiada e traduzida pelo mundo?” questiona.

Cabe ressaltar que durante a redação do livro Luanda,Dakar,ponto final , premiado pelo Oceanos,e inspirado pelo samba carioca,devido à grande influência musical durante esse processo criativo até mesmo nomeou um dos personagens centrais após Cartola.

Maria Reva

Maria Reva 

Djaimilia Pereira está confirmada na mesa oficial número seis intitulada “Falo do que impede o sono”, trazendo consigo um estilo lírico forte presente nas suas obras como O livro do meu pai (2025), onde aborda luto memória colonialista pertencimento simultaneamente.

Curiosidade: Além disso Maria escreve livretos para óperas.

Djaimilia Pereira está confirmada na mesa oficial número seis intitulada “Falo do que impede o sono”, trazendo consigo um estilo lírico forte presente nas suas obras como O livro do meu pai (2025), onde aborda luto memória colonialista pertencimento simultaneamente.

Curiosidade: Além disso Maria escreve livretos para óperas.

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By Beleza Sempre Viva

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