Alcione em Foco: A Exposição que Celebra a Jornada da Diva Brasileira

Alcione, uma das grandes vozes da música brasileira, construiu ao longo de mais de cinco décadas uma trajetória marcada pela independência feminina, ganhando destaque nacional a partir de 1972, um período em que muitas mulheres enfrentavam barreiras significativas.

A mostra Com amor, Alcione sintetiza quase 60 anos de sua carreira. Inaugurada em fevereiro de 2025 em São Luís do Maranhão, cidade natal da artista, a exposição está disponível desde a última sexta-feira (10.07) no Museu das Favelas, em São Paulo, que já recebeu outras exposições notáveis como Racionais MC’s: o quinto elemento, em 2025.

Com um acervo pessoal que ultrapassa 650 itens, a exposição ocupa um andar inteiro do museu e apresenta uma variedade de objetos, incluindo fotos, figurinos usados em apresentações, capas de discos, CDs, fitas cassete e revistas. Entre os documentos expostos está a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil datada de 1972, na qual Alcione é registrada como instrumentista de trompete e cantora popular. Além disso, há imagens de santos e orixás.

Uma seção da exposição retrata Alcione ao longo dos anos.
Luan Batista

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A parte mais significativa da mostra é dedicada às fotografias que retratam momentos da infância e família da artista. Imagens dela desfilando pela Mangueira e acompanhada por ícones como Cartola e Clara Nunes também estão presentes. Um retrato marcante exibe Alcione e Beth Carvalho cantando junto à renomada Elizeth Cardoso, uma referência para as cantoras de samba dos anos 70.

Após deixar o Maranhão, Alcione se apresentou na cena musical carioca no Beco das Garrafas e posteriormente na Blow Up e na Igrejinha em São Paulo. Sua carreira realmente deslanchou em 1975 com o lançamento do álbum A voz do samba e o sucesso duradouro “Não deixe o samba morrer”. Desde então, ela lançou uma série de sambas e canções românticas que se tornaram clássicas, como “Garoto maroto” (1986), “Meu vício é você” (1987), “Estranha loucura” (1987), “Você me vira a cabeça” (2001), “A loba” (2001) e “Faz uma loucura por mim” (2004).

No segmento abaixo, Alcione discute questões relacionadas à condição da mulher negra na sociedade contemporânea, feminismo, religião, suas escolhas de figurinos e perucas, seu amor pela escola Mangueira, sua independência pessoal e sua decisão de não ter filhos.

“Nunca fui de levar desaforo pra casa; sempre fui muito bocuda”

Como você se relaciona com as favelas ao longo da sua vida?

No Maranhão não existem favelas; as pessoas vivem em palafitas. Quando cheguei ao Rio de Janeiro nunca havia visto uma favela. Conheci a Mangueira e me aproximei dela. Já era mangueirense no Maranhão depois que vi uma ala de baianas na revista O Cruzeiro, o que me encantou. Estou ligada à Mangueira até hoje. Havia um projeto chamado Mangueira do Amanhã inspirado no Império Serrano com seu Império do Futuro; quis fazer algo similar para ajudar as crianças da escola. Essa iniciativa existe até hoje e muitos dos meninos da bateria principal vieram desse projeto.

A seção da exposição dedicada aos seus santos e orixás reflete sua conexão com a religião. Como você vê isso?

Não sou alguém que frequenta missas todo domingo; não sou fervorosa nesse sentido. Porém, tenho fé em Deus e nos orixás. Aprendi isso com meus bisavós. Meu avô costumava dizer: “O céu é para quem merece; aqui na Terra conta quem tem”. Uma vez recitei esses versos para Mãe Menininha no Gantois; comecei a falar e ela terminou o verso comigo — isso demonstra como essa história é ancestral.

No contexto atual onde se observa um crescimento do protagonismo feminino negro na sociedade — algo pelo qual você sempre lutou — como vê essa mudança?

Desde sempre enfrentamos dificuldades desde a escola até outros ambientes sociais. Sempre tive consciência disso e sabia que deveria enfrentar essas barreiras. Nunca aceitei afrontas ou me encolhi diante das situações; sou ousada por natureza. Não vim aqui para dominar ou menosprezar ninguém; apenas quero ser eu mesma.

Os figurinos representam a paixão da cantora pela Mangueira.
Foto: Luan Batista

Acredita que ser mulher negra atualmente seja menos complicado do que quando você começou?

Não creio nisso; ainda enfrentamos muitos obstáculos neste país. A realidade continua difícil para todas as mulheres negras. Historicamente a indústria musical foi dominada por homens; Clara Nunes foi uma das pioneiras em vender discos no Brasil seguida por Beth Carvalho. Eu segui os passos delas para abrir espaço para as mulheres nesse mercado que antes era restrito.

Você nunca se casou formalmente?

Tive um relacionamento duradouro com um italiano durante dez anos e também morei três anos com um brasileiro. Não sou alguém que se apega facilmente ao conceito de posse; prefiro evitar conflitos desnecessários quando um relacionamento chega ao fim. Eles continuam sendo amigos até hoje porque sempre busquei evitar mágoas ou violências nas separações; meu desejo é alcançar paz espiritual (risos). Tive um casamento formal mas não durou porque muitos acreditam que após isso têm propriedade sobre o outro — eu sou livre.

Você se considera uma referência para mulheres negras autônomas?

Sempre fui independente sem necessariamente assumir esse rótulo publicamente. Meu pai me ensinou desde cedo a importância da autonomia: “Quando sair de casa tenha seu próprio lar”. Ele era um verdadeiro feminista.

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“Tive um casamento formal mas não durou porque muitos acreditam que após isso possuem o outro”

Poderia se considerar feminista?

Sinceramente não sei se me encaixo nesse termo exatamente; sei sim que sou forte e tenho autoridade sobre mim mesma — não permito que ninguém diminua essa autoridade.

Como conquistou essa força num mundo tão hostil às mulheres negras?

Meu pai sempre dizia: “Se a porta estiver fechada bata até abrir”. Ele tinha sabedoria incrível assim como minhas irmãs; nós somos responsáveis por nossas casas.

A fama como cantora impactou essa luta pessoal?

A trajetória nunca foi fácil em meio ao machismo prevalente na sociedade. Temos batido na porta constantemente! Precisamos dialogar com empatia e respeito mútuo sem violência ou desrespeito ao próximo.

Lembrando seu programa semanal na Globo nos anos 70 chamado Alerta geral, como conseguiu esse espaço?

Passei a realizar shows sob o nome Alerta geral, inspirado numa música homônima escrita por Marku Ribas — “Chorar pra quê?/ quem tem consciência pesada é você”. Em uma apresentação estavam presentes os diretores Walter Clark e Boni que quiseram conversar comigo após meu show dizendo que buscavam alguém como eu para apresentar seu próprio programa na emissora. Convidava artistas renomados como Dona Ivone Lara entre outros grandes nomes para se apresentarem junto comigo — foi uma experiência incrível!

Maria Bethânia ao lado de Alcione.
Foto: Arquivo pessoal

A exposição também inclui fotos dos bailes debutantes promovidos por você na Mangueira do Amanhã. Qual era seu objetivo com esses eventos?

Tinha vontade imensa de participar de um baile debutante mas não pude devido às limitações financeiras do meu pai. Por isso decidi realizar esse evento na Mangueira convocando todas as meninas fazendo quinze anos naquele ano para celebrar juntas! Convidei amigos famosos como Tom Jobim entre outros para serem padrinhos trazendo vestidos para elas usarem durante os bailes — foi mágico! O pai dessas garotas podia não ter condições financeiras mas eu dizia: “Vista sua melhor camisa social e venha prestigiar sua filha”. Essa época foi muito significativa!

Sua saúde impediu que tivesse filhos (você passou por uma histerectomia nos anos 70). Se pudesse teria optado por ter filhos ou isso não era prioridade? 

Acredito que talvez fosse complicado ter filhos naquela época pois precisava cuidar dos meus irmãos menores além das outras crianças ao meu redor — caso contrário teria dificuldade em equilibrar minha carreira com cuidados maternos devido à minha natureza desconfiada quanto aos cuidados com crianças alheias.. Porém sou grata pela oportunidade dada por Deus ao cuidar dos filhos dos meus irmãos!

Analisando seu contexto histórico onde cantoras precisavam escolher entre carreira ou família devido às pressões sociais masculinas… Você fez essa escolha ou agiu conforme sua vocação natural? 

Sempre agiria assim mesmo! Cantar é meu amor verdadeiro! Sou musicista também toco saxofone alto barítono trompetes…

“Se tivesse filho não poderia seguir minha carreira”

E quanto à escolha dos figurinos? 

Mantenho parceria com Dona Sílvia Bevilacqua costureira paulista responsável pelas minhas roupas feitas sob medida conforme meu gosto pessoal! Ela envia fotos das peças novas para minha aprovação baseadas nas medidas previamente estabelecidas já conhecidas dela!

E os brilhos nas roupas são essenciais? 

Nascí pra brilhar nesta Terra! Não vim pra passar despercebida!

E os cabelos? Já experimentou diversos estilos? 

Sendo influenciada pelo tempo vivenciado na África durante os anos 80 trouxe tendências africanas usando tranças típicas combinadas ainda com roupas angolanas… Sou criativa!

E quantas perucas possui atualmente? 

No passado possuía apenas duas perucas mas hoje tenho cerca de quinze opções diferentes dependendo do humor escolhido pra cada ocasião! Queremos sempre estar bonitas certo (risos)?!

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By Beleza Sempre Viva

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