Embora o autor Raphael Montes escreva obras que exploram temas como canibalismo, violência, abuso psicológico e suicídio, ele se vê como uma pessoa medrosa. “Essa sensação me proporciona a compreensão necessária para criar histórias que também apavoram os outros”, revela à ELLE. “A maior fonte do meu medo é a mente humana. Existe uma crença de que criminosos são monstros, mas, na verdade, são apenas pessoas.”
Natural da zona média do Rio de Janeiro, mais especificamente do Méier, Montes tem 36 anos e é graduado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Recentemente, lançou seu novo livro intitulado A estranha na cama (Companhia das Letras). “Eu o considero um thriller erótico que combina elementos de suspense, crime e investigação, com o sexo como foco central”, explica.
Ele adaptou parte da história para o cinema enquanto ainda trabalhava no livro – a produção, dirigida por Esmir Filho, está prevista para estrear em 2027 na Netflix. Raphael também gerencia sua própria produtora chamada Casa Montes, que se dedica à adaptação de suas obras e ideias originais.
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Entre seus livros estão Suicidas (2012), Dias perfeitos (2014), O vilarejo (2015), Jantar secreto (2016) e Uma mulher no escuro (2019), que foi premiado com o Jabuti na categoria romance de entretenimento e traduzido em mais de 25 países. Além disso, ele escreve roteiros para televisão e cinema, como a série Bom dia, Verônica (2020-24) na Netflix, baseada em outro de seus livros, além da novela Beleza Fatal, da HBO Max.
Em um bate-papo realizado às vésperas do Halloween, Raphael Montes compartilhou sua jornada com a ELLE:
Como você descreveria sua infância?
Cresci como filho único em uma família de classe média onde a cultura não era muito valorizada. Aos 12 ou 13 anos, comecei a me interessar por literatura policial graças à influência da minha tia-avó Cici, a quem dediquei meu primeiro livro. Ela me presenteou com obras de Agatha Christie (1890-1976), Sidney Sheldon (1917-2007) e Arthur Conan Doyle (1859-1930) durante minha infância. Ela foi fundamental para meu desenvolvimento como escritor. Comecei a escrever contos na escola e finalizei Suicidas entre os 16 e 19 anos.
Quais autores influenciaram seu trabalho?
Costumo dizer que o terror me escolheu. Só passei a conhecer autores como Stephen King, H. P. Lovecraft (1890-1937) e Edgar Allan Poe (1809-1849) depois que começaram a notar essa característica na minha escrita. Meu contato inicial com narrativas se deu pelas novelas. Sou fã desse formato porque acredito que ajudou a moldar o imaginário brasileiro. Nascido em 1990, eu assistia às novelas da Globo no auge dos anos 2000. Desde cedo preferia as tramas policiais e de mistério como Celebridade (2003), A próxima vítima (1995), que vi em reprise, e A Favorita (2008).
“Meu principal contato com narrativas eram as novelas”
A formação em Direito influenciou sua carreira literária?
Quando declarei meu desejo de ser escritor, meus pais ficaram preocupados. Eles investiram bastante para que eu estudasse no São Bento (Rio de Janeiro), um dos melhores colégios do Brasil. Minha tia-avó contribuiu financeiramente nos primeiros anos e após sua morte meus pais assumiram as mensalidades. Ao finalizar o ensino médio, eles expressaram que não haviam feito esse investimento para eu seguir carreira na literatura. Acreditavam que poucos conseguiam viver disso no Brasil além de Paulo Coelho. Por isso optei por um caminho mais seguro e ingressei em Direito na UERJ e cursei um ano de Administração na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), com bolsa integral. Contudo, percebi que Direito não era meu destino final; continuei escrevendo.
Quando ocorreu a mudança decisiva em sua carreira?
Complementei Suicidas durante o período entre o fim do ensino médio e o início da faculdade. O livro foi publicado quando eu tinha apenas 21 anos em 2012. Já Dias perfeitos, saiu enquanto eu estava na graduação, equilibrando aulas pela manhã com estágio à tarde e escrita à noite. Naquela época, Rodrigo Teixeira (de Me chame pelo seu nome e Ainda estou aqui) entrou em contato comigo para adquirir os direitos dos dois títulos para adaptações cinematográficas por um valor equivalente ao que ganharia em dois anos como advogado júnior; então decidi deixar meu emprego para tentar viver da literatura nesse período.
Logo após isso,Dias perfeitos foi vendido internacionalmente e começaram a surgir convites para atuar no audiovisual – algo que trouxe segurança financeira para mim. Tinha apenas 23 anos quando o livro foi lançado; participei do Programa do Jô, onde fui abordado pela Rede Globo sobre roteiros.
Outros marcos vieram logo depois. Entre os anos de 2016 e 2017 recebi uma proposta da Netflix para desenvolver uma série chamada Bom dia, Verônica. Em 2020, meus livros conquistaram ainda mais leitores através das redes sociais como TikTok e YouTube; esse crescimento orgânico fez com que eles entrassem nas listas dos mais vendidos.
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Como você lida com seus medos?
Tenho temor da morte . Os escritores , assim como outros artistas , criam suas obras em resposta ao medo da mortalidade . Escrevo contra a morte , pois quando eu partir , minhas obras permanecerão aqui . Para nós , artistas , há um desejo intrínseco de eternizar nossa essência através do nosso trabalho . span > p >
Esse medo impacta seu cotidiano? p >
Cuido muito bem da minha saúde mental através da terapia há vários anos . Também pratico exercícios físicos regularmente , nado no mar de Copacabana , ando de bicicleta e corro . Além disso , valorizo estar cercado por bons amigos , sair para jantar e conversar sobre diversas coisas da vida . span > p >
Jantar secreto i > b > , lançado em 2016 , entrou nas listas dos mais vendidos novamente em2020 . Agora , após dez anos desde sua publicação original , ganhou uma nova edição traduzida para inglês , além de uma versão luxuosa . b > p >
Jantar secreto span > i > tem um significado especial para mim ; mesmo antes do sucesso , já era meu livro favorito . Escrevi durante uma fase muito feliz da minha vida , quando estava começando minha carreira desejada . Durante esse período estava lendo bastante , assistindo muitos filmes e queria criar algo inesperado . O resultado final foi diferente do planejado pela Companhia das Letras (minha editora), mas continuo apaixonado pelo livro. span > p >
Quando foi lançado inicialmente , teve uma recepção morna se comparada a Dias perfeitos span > i > . Contudo , durante a pandemia começou a ser descoberto nas redes sociais . Em uma Bienal do Livro após o retorno das atividades presenciais percebi essa nova dimensão ao ver cerca de quatrocentas pessoas na fila esperando autógrafos . Muitos relataram ter conhecido o livro através do TikTok ou Instagram durante o isolamento social . Foi um crescimento natural sem campanhas planejadas por trás disso. span > p >
“ Faço terapia há muitos anos e cuido muito bem da minha saúde mental ” span > p > blockquote >
Você escreveu um novo capítulo para esse livro muitos anos depois. b > p >
Não sou fã de sequências; costumo dizer que meus livros são únicos como filhos únicos , porém os leitores pediam por isso . Para comemorar os dez anos (de Jantar secreto) span > i > me propuseram fazer uma edição especial . A editora insistiu na ideia de continuar a história . Um dia , enquanto estava no mar da Bahia , surgiu a ideia para um capítulo ambientado dez anos após os eventos originais . Escrevi secretamente esse texto antes de enviá-lo à editora. O novo capítulo possui cerca de vinte ou trinta páginas repletas de reviravoltas mostrando o destino dos personagens principais dessa trama. As reações foram diversas – algumas pessoas adoraram enquanto outras detestaram – mas fiquei surpreso com quão fácil foi escrevê-lo , pois percebi que os personagens continuam vivos dentro de mim como autor. span > p >
E qual é a recepção dos leitores fora do Brasil? b > p >
Valorizo ter leitores ao redor do mundo; quanto mais melhor! Sempre sonhei em ser publicado fora do país,e isso já ocorreu com Dias perfeitos span > i > lançada em vinte dois países diferentes . Tenho edições traduzidas para diversos idiomas ; porém existe distinção entre ser reconhecido como autor internacional versus ser visto apenas como um brasileiro traduzido. span > p >
Minhas narrativas refletem aspectos brasileiros – algo pelo qual sou muito orgulhoso – mas também têm apelo universal pois crime,mistério,suspense e terror são temas presentes nas culturas mundiais.Durante os primeiros momentos fui percebido principalmente como um jovem autor brasileiro promissor.E depois,depois do sucesso com < Jantar secreto Span > I>,passou-se a me tratar como autor internacional especializado nesse gênero mesmo sendo brasileiro. Span > P >
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Muitas vítimas e protagonistas de seus livros são mulheres que sofrem violência… O QUE VOCÊ PENSA SOBRE ISSO?–>
Muitas vítimas e protagonistas femininas nos seus livros enfrentam situações violentas… Como você lida com essas críticas?
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Muitas personagens femininas nos seus livros enfrentam situações violentas… Como você lida com essas críticas?
‘Receber críticas é parte…’ Eu entendo…’…
A discussão sobre essa temática é relevante…’
‘Minhas personagens não são frágeis…’ ‘O sistema machista precisa ser questionado…
‘Sou cauteloso ao abordar esses temas…’ ‘Minhas histórias refletem desafios reais…’….
“Receber críticas faz parte… Mensagens negativas não merecem atenção..”“É preciso ouvir as críticas construtivas…”
“O papel feminino no gênero policial sempre foi problemático…”
“A arte deve provocar discussões sobre realidades…” ‘Os desafios enfrentados pelas mulheres devem ser discutidos.’
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“a arte deve provocar discussões sobre realidades…”’Os desafios enfrentados pelas mulheres devem ser discutidos.’–>
“Receber críticas faz parte…” “Todo autor evolui…” “O gênero está mudando…” “As minhas personagens não são vulneráveis…” “Elas têm suas próprias motivações…” “Meu objetivo é criar complexidade…” “Não quero reforçar estereótipos negativos…” “Minhas histórias refletem desafios reais…”. “A arte deve provocar discussões sobre realidades…”.
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