Quando a determinação de um homem em conquistar uma mulher é percebida não mais como uma demonstração de amor, mas sim como uma ameaça, o que pode ocorrer? Em Obsessão, lançado no Brasil em maio, essa linha tênue rapidamente se transforma em um pesadelo.
A história gira em torno de um jovem (Michael Johnston) que nutre sentimentos por sua colega de trabalho (Inde Navarrette). Temendo a rejeição e sem coragem para revelar seus sentimentos, ele acaba utilizando um amuleto mágico na esperança de que ela se apaixone por ele. Ao tentar manipular os sentimentos dela, se depara com uma versão obcecada da namorada, além de consequências que distorcem qualquer ideal romântico.
Sob a direção de Curry Barker, esta produção com orçamento reduzido se consagrou como o filme de terror mais rentável do século, arrecadando mais de US$ 500 milhões desde seu lançamento. O filme se junta à lista do chamado incel horror, que inclui obras como Pisque duas vezes (2024) e Fresh (2022).
LEIA MAIS: “Acampamento Miasma”, “Amor da minha vida” e outras estreias do streaming em outubro
O termo incel, originado no final da década de 1990, provém da expressão em inglês involuntary celibate e refere-se a uma comunidade predominantemente virtual composta por homens que culpam as mulheres por suas dificuldades afetivas e sexuais. Esse ressentimento frequentemente se manifesta como oposição a movimentos sociais, incluindo o feminismo, e na propagação de discursos de ódio nas mídias sociais.
“Ainda não é possível afirmar que o fenômeno se tornou um subgênero estabelecido. Contudo, já conseguimos perceber o incel horror como uma tendência que facilita a identificação e análise de filmes onde a violência, o medo e a ameaça são resultados diretos da masculinidade frágil, desse ressentimento masculino e da crença equivocada de que os homens têm direito ao afeto e ao corpo das mulheres”, comenta Gabriela Müller Larocca, doutora em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista na representação feminina no gênero do horror.
A figura do homem incapaz de aceitar um “não” é uma temática antiga no universo cinematográfico. Ao longo dos anos, comédias românticas e dramas contribuíram para solidificar a ideia de que a persistência muitas vezes representa amor verdadeiro. Essa narrativa histórica perpetua um modelo arraigado. “Essas histórias nos ensinam implicitamente que as mulheres não sabem exatamente o que desejam e que um homem suficientemente determinado merece ser recompensado com seu afeto”, analisa Gabriela.
No filme Obsessão, essa lógica é levada a um extremo sombrio. Ao invés de simplesmente aceitar que os sentimentos da amiga não podem ser forçados, o protagonista interfere na sua vontade. A premissa transforma a conquista em uma discussão sobre consentimento.
“Enquanto outros gêneros podem suavizar esses aspectos sob uma ótica romântica, no terror há menos espaço para interpretações que os justifiquem”, diz Gabriela Müller Larocca.
Outro filme representativo é Acompanhante perfeita(2025), dirigido por Drew Hancock. Aqui, a questão aparece sob outra perspectiva. A protagonista descobre que não é humana, mas sim uma androide cujo comportamento pode ser manipulado por seu namorado. A fantasia sobre ter uma parceira ideal feita para atender às necessidades masculinas evolui para uma reflexão acerca do controle com elementos aterrorizantes.
LEIA MAIS: 18 destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Um vilão atemporal
Apesar do conceito ser recente, essas narrativas têm raízes históricas profundas. “Por séculos, discursos religiosos, políticos e científicos legitimaram a subordinação feminina, limitando sua autonomia e tratando-as como dependentes da autoridade masculina. As mulheres foram vistas como propriedade destinada ao lar e à maternidade, sujeitas à autoridade paterna inicialmente e depois à figura do marido”, aponta a pesquisadora. “Mesmo as mudanças promovidas pelos movimentos sociais, como o feminismo, não erradicaram completamente essas concepções.” Essa perspectiva permite revisitar clássicos do cinema sob essa luz crítica.
O gênero terror sempre teve um forte potencial para explorar essas questões sociais. “Enquanto em outras categorias esses elementos podem aparecer disfarçados sob um manto romântico, no horror há menor espaço para interpretações legitimadoras”, ressalta Gabriela.
No contexto atual, as comunidades incels na internet tornaram-se mais evidentes e adquiriram novas formas de organização e disseminação. “Em vez de considerar uma influência direta entre essas comunidades e produções cinematográficas de horror, podemos observar um diálogo entre o cenário social contemporâneo e esses filmes. O cinema deve ser visto não como algo isolado da sociedade, mas como um reflexo dela”, afirma.
A crescente popularização desse rótulo reflete também uma mudança na percepção pública sobre personagens antes vistos apenas como ciumentos ou incompreendidos nas relações amorosas. “Atualmente temos melhores ferramentas e maior abertura para questionar essas representações e reconhecer as dinâmicas abusivas subjacentes”, afirma Gabriela.
Em vez de indagar porque o protagonista não conseguiu conquistar sua amada, agora questionamos outra coisa: por que ele acredita ter direito sobre sua vida e seu corpo? “Em última análise, o cinema relacionado ao horror incel não está criando novos vilões; está expondo problemas antigos com clareza renovada e convidando-nos a reavaliar narrativas consumidas sem crítica anteriormente”.
Outros filmes recentes do incel horror:
Acompanhante perfeita (2025)
Durante um fim de semana com amigos em uma casa isolada , uma jovem descobre que foi literalmente criada para satisfazer seu namorado . Misturando terror com ficção científica , o filme explora a tentativa de transformar afeto e consentimento em algo que pode ser comprado por um homem.
Disponível na HBO Max
Pisque duas vezes (2024)
Na estreia como diretora de Zoë Kravitz , Naomi Ackie interpreta uma garçonete que conhece um bilionário , vivido por Channing Tatum , aceitando acompanhá-lo em uma viagem à sua ilha particular . Junto aos amigos dele , ela espera dias luxuosos , mas eventos estranhos logo transformam o passeio numa caçada perturbadora . O filme revela como estruturas protegem homens poderosos enquanto silenciam mulheres. span >
span >Disponível na Apple TV+ p >
Fresh (2022)
Dirigido por Mimi Cave , com Daisy Edgar-Jones e Sebastian Stan no elenco , este longa acompanha uma jovem que finalmente conhece alguém interessante após várias tentativas frustradas . Mas ao aceitar passar um fim de semana com esse novo namorado , descobre intenções aterrorizantes ocultas . A fusão entre romance e suspense transforma sua vulnerabilidade diante de um novo parceiro em uma ameaça extrema.
Disponível no Disney+ p >
iframe > p >
Não se preocupe , querida (2022)
b >Dirigido por Olivia Wilde , ambientado nos anos 1950 , nesta comunidade aparentemente perfeita . Uma dona de casa (Florence Pugh) começa a perceber anomalias nesse mundo idealizado . Ao investigar os segredos dessa comunidade junto ao marido (Harry Styles), passa a questionar as regras que controlam sua vida . A obra retrata uma sociedade onde os homens dominam as mulheres definindo seus modos de viver.
Disponível na HBO Max p >
O homem invisível (2020)
Protagonizado por Elisabeth Moss , este drama com toques ficcionais dirigido por Leigh Whannell mostra uma mulher tentando reconstruir sua vida após escapar de relacionamento abusivo com cientista . Quando ele é considerado morto , eventos estranhos fazem-na suspeitar estar sendo perseguida por alguém invisível . Incapaz de lidar com a perda do controle sobre ex-parceira , o cientista usa invisibilidade para intimidá-la.
Disponível no Prime Video p >
LEIA MAIS : Conheça Neon , distribuidora responsável por longas como “O agente secreto”e“Fjord”
