Desde há quase dez anos, Pomme insiste para sua equipe: “Precisamos ir ao Brasil”. Com interações em português nas redes sociais e fãs que a seguem desde o lançamento de seu álbum de estreia, em 2017, a cantora francesa sempre soube que havia um público ávido por sua música no Brasil. Agora, esse tão esperado encontro se concretizará. No dia 26 de maio, a artista de 29 anos se apresentará pela primeira vez no país, em São Paulo – os ingressos já estão disponíveis aqui. “As pessoas no Brasil têm escutado minhas músicas há tanto tempo. Quero aproveitar essa oportunidade não só para tocar, mas para realmente me conectar com elas”, compartilha em entrevista.
Nascida como Claire Pommet, Pomme iniciou sua trajetória na cena musical independente ainda jovem e rapidamente se destacou pela fusão de chanson française, folk, música clássica e pop alternativo em suas composições intimistas. Seu disco inaugural, À peu près (2017), foi bem recebido pela crítica, mas foi com Les failles cachées (2019) que ela solidificou sua presença no cenário musical. Em seguida, lançou Consolation (2022) e Saisons (2024), aprofundando ainda mais sua estética melancólica e minimalista, que também marca seus espetáculos.
Em seus shows, Pomme se apresenta sozinha no palco, alternando entre guitarra, harpa e piano, criando uma atmosfera que se assemelha a conversas íntimas com o público. “Não encaro isso apenas como um show. É mais como compartilhar um momento especial em uma sala cheia de gente.”
Ela destaca que esse formato intimista favorece a espontaneidade. “Costumo conversar bastante durante as apresentações, faço piadas e me mostro vulnerável. Gosto de estar sozinha no palco porque ninguém espera que eu termine de falar antes de voltar a tocar”, diz entre risos.
A conexão emocional que estabelece com os espectadores está ligada a uma jornada pessoal repleta de inseguranças. Apesar de atualmente ser uma das artistas mais reconhecidas da sua geração fora da França, Claire revela que levou anos até conseguir afirmar publicamente seu desejo de ser cantora.
“Quando somos crianças, é aceitável dizer que queremos cantar. Mas aos 12 anos, na escola, as pessoas olhavam para mim de forma estranha. Acabei me sentindo envergonhada”, recorda. “Não vinha de uma família ligada à indústria musical e não conhecia ninguém do meio. Achava isso impossível. Contudo, a música sempre fez parte da minha vida. Minha mãe dizia que era loucura eu cantar tão bem desde pequena.”
Embora seus pais não fossem músicos profissionais, Pomme cresceu em um ambiente onde a música era valorizada. Ela estudou teoria musical por vários anos e passou uma década em um coral infantil enquanto aprendia violoncelo. “Na época eu não gostava nada da teoria musical. Hoje percebo o quanto foi um privilégio ter essa formação e consigo tocar diversos instrumentos com facilidade.”
A cantora Pomme faz show pela primeira vez no Brasil.
Divulgação
Sua carreira começou de maneira quase artesanal quando ainda era adolescente; ela começou postando covers no YouTube e buscando oportunidades para cantar em bares na cidade de Lyon antes de se mudar para Paris. “Fazia tudo da forma tradicional; ia aos shows, conversava com as pessoas e dizia: ‘Oi, tenho apenas 16 anos e quero me apresentar’.”
Curiosamente, ela só passou a afirmar ser cantora publicamente quando já conseguia viver financeiramente da música. “Nunca cheguei a dizer ‘quero ser cantora’. Quando comecei a falar isso já era profissionalmente reconhecida como tal. Antes disso, costumava dizer que queria ser professora de inglês e trabalhar com crianças – o que também era verdade.”
Se o desenvolvimento da carreira foi gradual, sua relação com a identidade como mulher sáfica foi ainda mais desafiadora. Crescendo em uma família cristã e conservadora politicamente à direita, Pomme revela que acreditava haver apenas um jeito adequado de viver. “Estava imersa na heterossexualidade e nas normas sociais vigentes. Durante muito tempo pensei que precisava seguir esse caminho também.”
“As pessoas encontravam conforto nas minhas canções antes mesmo de eu conseguir encontrar isso em mim.”
Pomme
Foi somente durante o ensino médio que ela começou a explorar seus próprios sentimentos ao entrar em contato com indivíduos LGBTQIAPN+, mesmo enfrentando resistência interna inicialmente. “Eu mesma tinha um pouco de homofobia interiorizada. Ficava frustrada porque não me permitia pensar sobre esses assuntos. Quando tive minha primeira namorada aos 19 anos, ainda não estava confortável com isso”, confessa. “Passei toda minha vida querendo ser normal; desejava ser heterossexual e ter filhos como todo mundo. Mas ninguém é realmente normal.”
Essa vivência impactou diretamente sua obra musical. Ao começar a compor canções sobre amores entre mulheres aos 20 anos, percebeu que estava criando um espaço singular dentro da música contemporânea francesa. “As pessoas encontravam alívio nas minhas letras antes mesmo de eu conseguir encontrá-lo dentro de mim mesma. Minha conexão com a comunidade LGBTQIAPN+ surgiu muito desse lugar.”
Enquanto suas letras tornavam-se cada vez mais pessoais e confessionalistas, sua música também começou a ganhar reconhecimento além-fronteiras. Pomme acredita que essa expansão ocorreu devido à intensa interação que teve nas redes sociais durante os primeiros anos da carreira. “Cresci imersa na internet; hoje sou quase alérgica às redes sociais! Mas quando tinha uns vinte anos era muito ativa e mantinha diálogos frequentes com as pessoas.”
Nos últimos tempos, colaborações com artistas globais ampliaram ainda mais seu público-alvo, incluindo trabalhos ao lado do Coldplay e do Stromae assim como uma participação na série Arcane da Netflix baseada no game League of Legends. Entretanto, o Brasil se manteve como um caso especial para ela. “Recebo comentários dos brasileiros há tantos anos que não consigo fingir surpresa por finalmente estar indo aí; sinto como se tivesse uma família sem nunca ter conhecido essas pessoas.”
A expectativa pela visita ao Brasil envolve também descobertas além da música. Vegetariana convessa sobre seu amor por experimentar novos pratos quando viaja. “Quando era jovem tinha uma relação complicada com comida; agora aos quase trinta me sinto melhor comigo mesma e só penso em comer coisas boas”. Ela expressa interesse em explorar mais o cenário indie brasileiro antes do show pois deseja descobrir novos artistas locais além de querer ver o oceano caso tenha tempo.
Durante sua apresentação no Brasil ela promete trazer tanto sucessos conhecidos quanto algumas faixas inéditas do próximo álbum ainda em fase de criação – projeto este que deve manter a essência folk característica mas também abrir espaço para novas experimentações sonoras na produção musical atual.“Gravei meus discos sempre da forma tradicional,” declara ela,”mas agora busco arriscar mais na produção sem perder o coração folk presente nas minhas canções.”
