Após sete anos de um relacionamento com outro homem, John se vê em uma nova situação quando decide dar um tempo e acaba se apaixonando por uma mulher. Diante de emoções conflitantes, ele se encontra em um dilema, mantendo os dois relacionamentos sem saber qual caminho escolher. Tanto seu namorado (com quem ele voltou) quanto sua namorada estão dispostos a lutar por seu amor. Essa é a premissa da comédia Cock – O amor no ringue, na qual interpreto John, o protagonista deste triângulo amoroso. O espetáculo está em sua reta final no Teatro Vivo, com apresentações às quartas e quintas-feiras até o dia 11 de junho.
Convidado pela ELLE, decidi compartilhar algumas reflexões sobre este projeto que significa muito para mim. Além de atuar, sou um dos criadores da peça junto à produtora Jessica Rodrigues. Espero que você que lê este texto sinta vontade de nos prestigiar no teatro.
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Para entender como cheguei até aqui, preciso voltar um pouco no tempo… Há mais de dez anos, enquanto pesquisava obras de jovens dramaturgos britânicos para trazer ao Brasil, deparei-me com Cock. Essa peça é escrita por Mike Bartlett, um dos meus autores contemporâneos favoritos, reconhecido no Brasil por obras como Love, Love, Love e Contrações, que contaram com as talentosas atrizes Débora Falabella e Yara de Novaes em seu elenco. Sinto uma grande admiração pela forma como Bartlett constrói diálogos afiados e combina humor ácido com narrativas originais.
Cock possui essas características marcantes, além de apresentar um protagonista desafiador e explorar temas relevantes como amor, identidade e traição nas relações afetivas (tanto saudáveis quanto tóxicas). A peça já foi encenada em diversos países e recebeu elogios do The New York Times, que a descreveu como uma comédia excepcional. O título em inglês tem múltiplos significados; além de se referir a galo ou ao órgão sexual masculino, também é uma gíria para descrever pessoas arrogantes.
A obra explora todos esses significados – especialmente o do “galo”, pois foi criada durante uma experiência do autor no México, onde a luta livre é popular e ainda ocorrem rinhas de galos. Bartlett se inspirou nesse ritual das brigas para desenvolver a dramaturgia que retrata confrontos emocionais intensos (não físicos!).
Marco Antônio Pâmio, Daniel Tavares e Bruna Thedy.
Foto: Annelize Tozetto
Nossa versão da peça foi dirigida por Nelson Baskerville e estreou em 2021, quando os teatros começaram a reabrir após a pandemia. Recebemos uma indicação ao prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor espetáculo daquele ano. Desde então, fizemos diversas apresentações pelo interior do estado e agora estamos em uma segunda temporada muito especial. No elenco estão Marco Antônio Pâmio, Hugo Coelho e eu; além da atriz Bruna Thedy, que traz um novo frescor à montagem e está brilhante em cena.
Mas o que me mantém tão conectado a esse texto? Há muitos fatores que mencionei anteriormente; porém, o principal é que os temas abordados continuam extremamente pertinentes. A cada apresentação descubro novas camadas – tanto na dramaturgia quanto na complexidade do personagem John.
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A sinopse mencionada anteriormente pode sugerir que a peça se resume a um triângulo amoroso peculiar entre um homem gay que se apaixona por uma mulher – algo impensável para ele até então. A grande questão parece ser escolher entre os dois amores.
Embora esses elementos sejam importantes na trama, eles dão espaço para questionamentos mais amplos sobre nossa busca incessante por definições claras sobre identidade e relacionamentos.
Se um homem gay ama uma mulher, isso automaticamente o torna bissexual? Ele precisa rotular esse desejo? Será que as certezas anteriores sobre sua orientação o limitaram? Pertencer a uma comunidade pode oferecer conforto mas também pode aprisionar dentro de estereótipos que não refletem nossas complexidades!
“Esse sopão de coisas misturadas borbulhando”, como diz meu personagem na peça. Isso o deixa confuso – assim como me deixa confuso como ator (o que considero ótimo). Gosto de interpretar personagens complexos que exigem atenção aos detalhes. No meio desse “sopão”, outros personagens exigem constantes definições sobre quem John realmente é e com quem ele deve ficar.
A beleza dessa obra está na maneira como o autor aborda esses temas delicados sem oferecer respostas fáceis ou cair em didatismos. Ele consegue extrair humor até das situações mais difíceis – como em relações tóxicas – mantendo o suspense até o final.
(…) Em uma entrevista sobre esta peça, Bartlett expressou algo que resume meu desejo de compartilhar essa história com o público: “É uma peça que ajuda as pessoas a fazerem escolhas sem medo ou angústia por terem que se encaixar em categorias.”
Cock – O amor no ringue: até 11 de junho no Teatro Vivo, avenida Dr. Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, São Paulo – SP. Apresentações às quartas e quintas-feiras às 20h. Ingressos custam R$100 (inteira) / R$50 (meia-entrada). Adquira ingressos pelo Sympla ou diretamente na bilheteria, aberta duas horas antes das apresentações.
Daniel Tavares é ator, produtor cultural e jornalista.
