Desde a infância, Tamara Klink sempre foi cativada pelo conceito de invernagem, um tipo de navegação polar que prioriza a sobrevivência ao longo do tempo em vez de uma travessia espacial. Ela cresceu ouvindo histórias inspiradoras sobre expedições de renomados exploradores como o norueguês Roald Amundsen (1872-1928), o britânico Ernest Shackleton (1874-1922), a australiana Sally Poncet, e especialmente as aventuras de seu pai, o velejador Amyr Klink, que experimentou o inverno antártico a bordo do Paratii entre 1989 e 1991, alimentando assim seus sonhos com esta possibilidade.
Em junho de 2023, Tamara deu um passo significativo em direção ao seu sonho ao zarpar da França em seu veleiro de dez metros, chamado Sardinha 2, com destino à Groenlândia. Ela encontrou um fiorde perfeito na Baía Disko, localizada na costa oeste da ilha, onde ancorou seu barco e passou oito meses observando a transformação do mar, que ia de sólido a líquido e vice-versa ao longo do tempo.
Armada com grãos, frutas desidratadas, legumes em conserva e uma coleção de clássicos literários como Cartas a um jovem poeta e Walden, além de álbuns digitalizados de Billie Eilish e Caetano Veloso, ela fez amizade com animais selvagens como raposas, lagópodes e focas. Tamara aprendeu a transformar gelo em água para beber e tomar banho, teve um encontro inesperado com um urso no convés do barco e enfrentou temperaturas extremas de até -40 graus. Durante esse período solitário, ela também conseguiu realizar uma entrevista exclusiva por e-mail via satélite para a ELLE View – seu principal canal de comunicação com o mundo – onde compartilhou suas experiências que incluem momentos críticos. Todas essas vivências foram reunidas em seu quinto livro intitulado Bom dia, inverno, lançado recentemente pela Companhia das Letras.
Tamara Klink na capa da ELLE View de dezembro de 2023.
Foto: Autorretrato
Aos 28 anos, Tamara se destaca como a primeira mulher do mundo a concluir um período de invernagem sozinha no Ártico. Além disso, ela já possui outros feitos notáveis em sua trajetória: em 2021, tornou-se a velejadora brasileira mais jovem a atravessar o Atlântico sozinha — experiência relatada em seu livro Nós: o Atlântico em solitário — e em setembro de 2025 realizou a Passagem Noroeste sozinha, tornando-se a mulher mais jovem no mundo e a primeira pessoa latino-americana a completar essa travessia da Groenlândia ao Alasca, onde atualmente seu veleiro está atracado.
“Embora essa não seja minha motivação principal para navegar, fico contente se minhas conquistas puderem abrir portas para outras mulheres. Agradeço às gerações passadas que lutaram pelos direitos que eu usufruo hoje – ter liberdade para escolher se quero ter filhos ou não”, comenta Tamara. “No mar, não importa se você é homem ou mulher; mas as mulheres frequentemente enfrentam humilhações e preconceitos que os homens raramente vivenciam nas mesmas circunstâncias.”
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