Pedro Almodóvar demonstra um vigor inabalável. Menos de dois anos após o lançamento de O quarto ao lado (2024), que conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e marcou sua estreia na direção em inglês, ele retorna com Natal amargo. O novo longa foi exibido na competição do Festival de Cannes, que se encerrou no último sábado (23.05), e tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para esta quinta-feira (28.05).
No enredo, Almodóvar revisita suas raízes espanholas, apresentando mais uma narrativa reflexiva, similar a Dor e glória (2019) e Mães paralelas (2021). O filme é estruturado como uma série de matrioskas. A protagonista Elsa (Bárbara Lennie, vencedora do Goya por A garota de fogo, de 2014) enfrenta a perda da mãe e lida com enxaquecas severas. Trabalhando como cineasta publicitária, ela tenta desenvolver um novo roteiro, mas, diante do bloqueio criativo, começa a extrair histórias da vida das pessoas ao seu redor, incluindo suas amigas Patricia (Victoria Luengo, que participou de O quarto ao lado) e Natalia (Milena Smit, de Mães paralelas).
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Na verdade, Elsa é a personagem central do roteiro criado pelo diretor Raúl (Leonardo Sbaraglia, que atuou em Dor e glória). Ele busca superar seu próprio bloqueio criativo ao se inspirar nas experiências das pessoas ao seu redor, como sua assistente Mónica (Aitana Sánchez-Gijón). Ambos os personagens são frutos da imaginação de Almodóvar, que afirmou ser mais cuidadoso e respeitoso quando utiliza referências de sua própria vida em seus trabalhos durante a coletiva em Cannes.
“Quando me inspiro em alguém ao meu redor, tento misturar com muita ficção para que a pessoa real nunca se reconheça”
Aos 76 anos, o cineasta mantém sua rotina intensa. Ele participa ativamente dos ensaios nas locações onde as filmagens ocorrerão. “Passamos vários dias em um parque ensaiando uma cena. Eu e Leo nos encontrávamos duas ou três vezes por semana”, comentou Aitana durante o festival. “Ensaiamos como se fosse um espetáculo teatral e chegamos ao set com total confiança porque tínhamos decorado tudo; ao mesmo tempo, estávamos abertos à magia do processo criativo. E Pedro estava sempre lá para nos guiar. Não podíamos desviar nem um milímetro do que ele pedia.”
Almodóvar também prefere trabalhar durante a noite. “O aspecto mais desafiador de trabalhar com Pedro é que ele tem uma energia imensa no final da tarde e à noite. Filmamos das 15h às 3h da manhã”, revelou Bárbara. Para Milena Smit, é inspirador ver o diretor em ação no set. “É como observar uma criança se divertindo no parque. De repente estamos gravando às 3 da manhã, todos exaustos, mas Pedro continua cheio de energia e entusiasmo, contagiando todos nós.”
A seguir estão os principais trechos da entrevista concedida por Almodóvar em Cannes:
O filme como um espelho
Pedro Almodóvar: “Natal amargo retrata a jornada criativa de um diretor que compartilha a mesma profissão que eu e vive essa experiência com paixão semelhante. Para mim, dirigir não é apenas um trabalho; é algo que vivo intensamente e não sei por quanto tempo isso irá durar. Leonardo representa meu alter ego – não literalmente – pois minha autoficção jamais é direta. O diretor na história também está escrevendo sobre alguém que representa sua própria vivência; neste caso, (a personagem de) Bárbara Lennie está passando por uma crise que reflete algo que vivi no início deste século combinado com enxaquecas insuportáveis. Estamos narrando uma história em três níveis: primeiro eu, depois ele e por fim Bárbara como representação deste homem. Todos os personagens lidam com o luto.”
Inspiração em si mesmo
Almodóvar: “Natal amargo pode ser visto como um complemento a Dor e glória. Em Dor e glória abordei diretamente a paralisia enfrentada pelo criador devido a questões físicas – o personagem passou por uma cirurgia nas costas que gerou dores incapacitantes. No novo filme, a dor é moral e psicológica; nesse aspecto me identifico plenamente com o personagem interpretado por Leonardo Sbaraglia. É uma dor intensa oriunda da crise criativa que o leva a introspecção e à análise do que lhe é próximo. O instinto do criador tende a ser egoísta; muitas vezes ele não questiona aqueles que servem de inspiração para seus personagens, o que pode ser arriscado para quem está ao seu redor. Isso gera um debate moral intrínseco à sensibilidade ética do artista.”
Referência cuidadosa
Almodóvar ressaltou: “Quando busco inspiração em alguém próximo, faço questão de mesclar bastante ficção para garantir que essa pessoa nunca se reconheça na obra final. Sempre procurei evitar magoar qualquer um; caso soubesse que poderia causar prejuízo ao usar alguém como referência para um personagem, eu simplesmente não realizaria o filme. É essencial ter responsabilidade.”
A censura atual
“Não pretendo julgar ninguém”, afirmou Almodóvar, “mas acredito firmemente que artistas devem abordar questões sociais atuais – isso é um dever moral. Não critico quem opta por não fazê-lo; entretanto, o silêncio e o medo são inaceitáveis – isso reflete nosso temor diante da realidade atual e é sintoma da desvalorização da democracia. Portanto os criadores devem expressar-se abertamente sobre as dificuldades cotidianas sem rodeios; nossa responsabilidade na Europa é servir como escudo contra figuras como Trump, Netanyahu ou Putin. No continente europeu existem leis para proteger contra esses abusos; Trump deve entender que há limites para suas loucuras.”
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Transformações
Almodóvar refletiu sobre sua trajetória artística ao afirmar: “Houve diversas mudanças significativas em cada fase da minha vida profissional; meus filmes dos anos 1980 são distintos dos atuais assim como os realizados no início deste século são diferentes dos anteriores aos anos 1990. Realizo as produções guiado pelo meu coração; alguns filmes dos anos oitenta eram exagerados e barrocos – não sinto necessidade de retornar àquele estilo mesmo reconhecendo ter adquirido profundidade nesta nova era enquanto perdi parte do humor característico daquela época.” Ele ainda acrescentou sentir falta desse humor em algumas obras recentes mas acredita ter recuperado parte dele neste novo projeto especialmente no início do filme.
“Já estou farto de mim mesmo. Não quero depender apenas da minha visão para continuar escrevendo”
Colaborações à vista
Almodóvar concluiu afirmando estar à procura de novas colaborações para expandir seus horizontes artísticos após este trabalho definitório sobre si mesmo. “Estou buscando alguém com quem possa compartilhar essa jornada criativa pois até agora escrevi isoladamente; desejo explorar perspectivas novas além das minhas próprias”, finalizou.
