Ana Paula Maia: A Força da Literatura “Casca Grossa” em sua Jornada no International Booker Prize

A obra de Ana Paula Maia destaca aspectos da sociedade que frequentemente são relegados ao esquecimento. Cenários como abatedouros, cemitérios e colônias penais são o lar de suas personagens, que também enfrentam marginalização e vivem entre a rotina e o descaso. O ápice dessa representação singular é encontrado em Assim na terra como embaixo da terra (2017), onde a narrativa se desenrola em uma colônia penal que se transforma em um campo de extermínio sob o controle de um carcereiro sádico, que caça presos como se fossem animais.

O sexto romance da autora, recém-lançado no Reino Unido com o título On earth as it is beneath (Charco Press), é um dos finalistas do International Booker Prize. O vencedor dessa renomada premiação literária será revelado na próxima terça-feira (19.05), durante uma cerimônia na Tate Modern, em Londres. Ana Paula Maia se destaca como a única representante da América Latina entre os cinco finalistas e é a segunda escritora brasileira a alcançar tal feito – Itamar Vieira Junior foi o primeiro ao ser indicado por Torto Arado, em 2024.

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Foto: Reprodução

“Estar entre os finalistas é uma conquista monumental! Meu primeiro livro foi publicado há 23 anos e sinto que isso representa um reconhecimento significativo do meu trabalho literário”, comemorou a escritora de 48 anos em entrevista à ELLE, enquanto reside em Curitiba. “Quando comecei minha trajetória na escrita, a literatura brasileira passava por um período altamente introspectivo, com personagens envoltos em crises emocionais e existenciais. Eu me interessava por retratar o cotidiano de um abatedouro de porcos”, recorda ela, cujas obras já foram traduzidas para idiomas como inglês, espanhol, italiano e alemão. “Muitos criticavam minha escrita – consideravam-na estranha e desaprovavam até mesmo meu uso do travessão, que desafiava a tendência do fluxo de pensamento. Mas continuei seguindo meu caminho. E agora, vejam só, sou finalista do Booker Prize com uma das minhas histórias inusitadas utilizando travessão.”

“Não sou uma escritora que bebe em Clarice Lispector, mas em Sergio Leone”

Seus personagens “casca grossa”, expressão que utiliza tanto para eles quanto para si mesma, não costumam ser muito eloquentes ou reflexivos. Isso resulta em uma narrativa mais imagética ou “cinematográfica”, centrada nas ações e reações dos personagens e nas descrições das cenas. “Não me inspiro em Clarice Lispector; minha influência vem de Sergio Leone. Se não fosse pelo Leone, este livro não teria sido escrito”, defende ela ao mencionar o cineasta italiano conhecido pelo gênero faroeste spaghetti e pelo filme Fuga de Alcatraz (1979), estrelado por Clint Eastwood, como referências para Assim na terra como embaixo da terra.

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Não é à toa que seu livro Enterre seus mortos (2018) será lançado no Reino Unido em agosto após ser adaptado para o cinema pelo diretor Marco Dutra, conhecido por seus trabalhos no terror, com Selton Mello e Marjorie Estiano nos papéis principais em sua versão cinematográfica prevista para 2024. Além disso, Ana Paula criou a série Desalma (2020-) para a Globoplay, protagonizada por Cássia Kiss. “Desde criança assisto filmes de terror; desde cedo me sinto à vontade com a imagem de um homem segurando um machado (risos). Algumas pessoas conseguem ver delicadeza e poesia em tudo; eu nunca fui assim”.

“O brasileiro é um pouco resistente à literatura de terror”

Ana Paula faz parte de uma nova geração de escritoras latino-americanas, incluindo as argentinas Mariana Enríquez e Samanta Schweblin, que ganharam destaque internacional ao utilizar o gênero terror para expor problemas sociais. Em seu décimo romance, O tenebroso brilho do sol, previsto para lançamento ainda este ano, a brasileira explora o subgênero folk horror — focando em crenças rurais e ambientes isolados — ao contar a história de um vilarejo afetado por uma tragédia climática. “O brasileiro tende a ser resistente à literatura de terror; talvez busque algo mais doce como forma de escapismo. Contudo, espero que minha indicação ao prêmio sirva como um convite para novos leitores.”

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By Beleza Sempre Viva

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