Neste momento em que redijo estas linhas, me deparo com duas mensagens contrastantes a respeito da maternidade. Por um lado, há uma celebração quase incondicional das mães: poemas, declarações de amor e admiração são acompanhados por imagens de mulheres e seus filhos em momentos felizes e afetuosos. Por outro, uma visão crítica e negativa sobre o papel da maternidade se apresenta. A primeira mensagem é veiculada através das redes sociais, onde memes, reels, postagens e anúncios, especialmente em torno do Dia das Mães – data que se destaca como uma das mais lucrativas do ano para diversos setores – dominam o cenário. A segunda provém de pesquisas e do trabalho de escritoras que buscam retratar a maternidade com honestidade, baseando-se nas experiências reais de mulheres ao redor do mundo. Embora essas perspectivas possam parecer antagônicas, na vida cotidiana elas coexistem. Afinal, amar os filhos é algo muito distinto de dedicar-se completamente à vida deles em detrimento da própria.
Esse dilema encontra espaço na literatura produzida por mulheres ao longo dos últimos dois séculos. Virginia Woolf (1882–1941) já questionava a relação entre o papel da mãe e as expectativas sociais em relação à criação intelectual e aos deveres domésticos. Simone de Beauvoir (1908–1986) dedica uma parte significativa do renomado Segundo Sexo à figura materna, refletindo que “a gravidez é principalmente um drama que se desenrola dentro da mulher; ela a experimenta tanto como um enriquecimento quanto como uma mutilação…”.
Recentemente, o assunto ganhou mais visibilidade e espaço na produção literária que busca desmistificar e desconstruir o ideal maternal. “Embora o amor por filhos tenha sempre existido, a moralização associada a esse sentimento foi cuidadosamente elaborada”, afirma a psicanalista Vera Iaconelli em seu Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas da reprodução (Editora Zahar, 2023).
Ao dividir a maternidade em várias funções – como gestar, estabelecer laços parentais e cuidar de uma criança –, Iaconelli revela como se formou a narrativa que sugere que ser mãe é um destino inerente a todas as mulheres. Essa ideia falaciosa gera sofrimento tanto para mães quanto para crianças. Em obras como Mães arrependidas: Uma outra visão da maternidade de Orna Donath (Civilização Brasileira, 2017) e As abandonadoras: Histórias sobre maternidade, criação e culpa de Begoña Gómez Urzaiz (Editora Zahar, 2022), encontramos relatos de mulheres que chegam ao extremo de se arrependerem da maternidade ou optam por não assumir ativamente os cuidados com seus filhos. Sem justificar essas escolhas, as autoras destacam que as expectativas são diferentes para homens e mulheres. “Dos pais espera-se que desapareçam; das mães não”, observa Begoña. Se a maternidade fosse vista como uma escolha coletiva e não apenas uma imposição social às mulheres, provavelmente situações assim seriam menos comuns.
A seguir, apresentamos uma seleção de obras literárias que abordam criticamente o tema da maternidade e podem ajudar a aliviar o peso desse papel nas vidas femininas.
Não ficção
Coisas importantes também serão esquecidas
Martha Nowill
Companhia das Letras, 2025
Em seu terceiro casamento aos 39 anos, a atriz e dramaturga Martha Nowill enfrenta o dilema sobre ser ou não mãe. Com humor ácido, ela narra suas neuroses diante dessa questão comum. “Se até o dia 12 de novembro receber uma flor amarela de uma criança, então devo engravidar imediatamente; mas se for branca, posso esperar mais um ano”, escreve ao fazer um pacto com um oráculo fictício. O livro é um diário onde relata sua experiência ao engravidar espontaneamente de gêmeos durante a pandemia, incluindo os altos e baixos do puerpério. A autora compartilha reflexões sobre os desafios da gestação, as diferenças entre os papéis parentais e suas relações pessoais enquanto se reintegra ao mercado de trabalho após a licença-maternidade.
Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas da reprodução
Vera Iaconelli
Editora Zahar, 2023
A partir das experiências familiares – incluindo sua mãe adotiva – Vera Iaconelli analisa criticamente a maternidade sob o prisma da psicanálise. Ela examina como os discursos sobre maternidade causam sofrimento às mulheres. Segundo ela, assim como as mulheres não têm uma única definição ou trajetória na vida, a maternidade também deve ser vista sob múltiplos aspectos sociais relacionados à raça e classe. A autora utiliza referências históricas para ilustrar como nossa percepção sobre ser mãe é moldada por fatores políticos e econômicos.
As abandonadoras: histórias sobre maternidade, criação e culpa
Begoña Gómez Urzaiz
Zahar, 2022
A jornalista Begoña Gómez Urzaiz iniciou sua pesquisa para este livro movida pela autocrítica sobre suas próprias percepções do feminismo contemporâneo. Ao investigar histórias de mulheres que optaram por priorizar suas carreiras ou paixões em detrimento dos filhos – sem razões trágicas por trás dessas escolhas – ela revela como essa idealização pode levar ao desprezo social tanto quanto o abandono direto dos filhos. Apesar dos estigmas associados à escolha materna diferenciada entre homens e mulheres na sociedade atual.
Mães arrependidas: uma outra visão da maternidade
Orna Donath
Civilização Brasileira, 2017
Este livro aborda não apenas as nuances da experiência materna mas também questões relativas ao direito reprodutivo. A antropóloga Orna Donath conduziu entrevistas com vinte três mulheres entre idades variadas que expressaram arrependimento por terem optado pela maternidade. Essas mulheres mantêm laços com seus filhos mas afirmam que escolheriam caminhos diferentes se pudesse voltar no tempo.
Donath defende que discutir abertamente essas experiências pode ajudar outras mulheres que sentem pressão social em relação à maternidade.
Ficção
A filha perdida
Elena Ferrante
Intrínseca, 2016
A obra da escritora italiana Elena Ferrante frequentemente explora temas relacionados à maternidade e suas complexidades nas relações humanas. Em A filha perdida, Leda, prestes a completar quarenta anos e mãe de duas jovens adultas que vivem com o pai no Canadá, revela suas angústias enquanto viaja sozinha para relaxar na praia. Durante essa viagem ela confessa suas frustrações sobre ter deixado suas filhas pequenas para seguir carreira em outro país.Além disso,Leda reflete sobre sua própria vivência durante esse período fora do lar. Lida com sentimentos ambivalentes acerca do papel materno enquanto busca recuperar sua identidade pessoal separada das responsabilidades familiares.A narrativa ressalta as pressões enfrentadas pelas mães modernas através da perspectiva dessa protagonista complexa. A filha perdida foi adaptada para o cinema sob direção primorosa de Maggie Gyllenhaal. Além disso,a peça teatral baseada na obra foi montada no Brasil pela diretora Juliana Araújo.
Morra , amor i > b >
b >Ariana Harwicz span > span >
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Editora Instante ,2019 span >
Depois do nascimento do filho , a protagonista deste romance entra em colapso emocional . Sentindo-se dividida entre sentimentos contraditórios — amor pelo bebê , aversão pelo parceiro , desejo pela liberdade — , vive num vilarejo francês onde contrasta com outras mães felizes . Sua narrativa crua reflete esse conflito interno enquanto lida com pressões externas . O filme baseado nesta obra gerou discussões sobre saúde mental feminina .
