Fafá de Belém celebrou seu 70º aniversário no dia 9 de agosto, coincidindo com o cinquentenário do seu álbum inaugural, Tamba-tajá (1976). Esta data especial deu origem ao Fafá Fest, realizado em sua cidade natal, Belém, onde a artista passou a comemoração do seu aniversário trabalhando na gravação de um álbum audiovisual chamado Fafá 50, além de um disco de estúdio com compositores paraenses e atuando em uma série do Globoplay ambientada em Belém. “O Fafá Fest foi uma experiência divertida, saindo de casa para curtir as ruas com meus amigos e o público, que era exatamente o que eu queria. Essa sou eu”, compartilha à ELLE, entre risadas inconfundíveis.
A preparação para as festividades teve início no ano passado, quando se completou meio século desde sua primeira gravação, “Filho da Bahia” (1975), para a novela Gabriela. Em 15 de janeiro deste ano, o espetáculo Fafá de Belém, o Musical estreou no Rio de Janeiro. Nele, Fafá é interpretada por cantoras como Lucinha Lins (que já foi backing vocal de Fafá nos anos 70) e Laura Saab, sua neta.
Após apresentações em Rio e São Paulo, o musical finalmente chegou a Belém durante o Fafá Fest, no icônico Theatro da Paz. “É emocionante me ver representada pela minha neta de 14 anos nesse mesmo palco onde subi pela primeira vez aos 16 anos para atuar em uma peça chamada Tem muita goma no meu tacacá”, revela emocionada. O espetáculo seguiu depois para São Luís (MA) e Porto Alegre (RS).
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Foto: Tereza Maciel
No entanto, Fafá admite que o ano de 2025 não foi fácil. Ela enfrentou um episódio de burnout em março e ficou decepcionada por não ter sido convidada para a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas que aconteceu em Belém em novembro. “O que idealizei para o ano passado com a COP está acontecendo agora, gradualmente”, diz ela entre risadas.
Neste mês de outubro, a cantora também participou das festividades do Círio de Nazaré em Belém. Ela se uniu à procissão da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré e cantou “Eu sou de Lá”, do Padre Fábio de Melo, expressando sua devoção ao Pará e à padroeira do estado. “Que Nossa Senhora esteja sempre conosco. Nossa Senhora é do Brasil”, afirmou ela em uma referência sutil à disputa presidencial.
<p Em seguida, Fafá reflete sobre seus 70 anos e cinco décadas dedicadas à música e à arte, abordando os assédios e abusos que enfrentou ao longo da carreira (muitas vezes sem entender), além dos impactos do Mounjaro e do feminismo desde os anos 1970 até hoje.
“O que idealizei para o ano passado com a COP está acontecendo agora”
Poderia fazer um resumo sobre tudo que viveu até aqui?
Eu cheguei ao Rio há 50 anos como uma jovem vinda de Belém. Antes disso, já havia morado na cidade com minha família. Após um mês da gravação de “Filho da Bahia”, passei a ser reconhecida nas ruas. Quando ouvi minha voz pela primeira vez no rádio, achei horrível e estranha. No início, ninguém sabia quem eu era; só sabiam que provavelmente eu era de Belém. A primeira vez que fui reconhecida foi quando minha música tocou no Fantástico, o que me causou uma sensação estranha. Um dia fui comprar pão e uma mulher me perguntou: “Você não é aquela menina do Fantástico?”. Saí correndo pra casa apavorada e chorei muito.
Daquela menina até chegar a 2026: às vezes choro (gargalhadas), às vezes me sinto estranha ou aflita, mas valorizo tudo o que construí. Completo 70 anos com muita felicidade. Já passei por cancelamentos inúmeras vezes; contudo, ainda consigo lotar o Circo Voador e causar agitação no Cine Joia. Gravei um DVD em uma casa em Belém conhecida por ser um templo do tecnobrega. Nunca tinha ido a uma festa desse tipo; achei maravilhoso ver as pessoas dançando ao som do brega do Pará — casais improváveis se divertindo juntos. Eu realmente me reconheci na minha terra natal; é uma alegria poder usar roupas coloridas sem me importar com meu peso ou aparência.
“Eu realmente me reconheci na minha terra natal”
No ano passado você enfrentou um burnout?
Tive um burnout severo que durou cinco dias difíceis; acordei confusa sobre onde estava, sentia falta de ar e suava frio e quente ao mesmo tempo — pensei que estava morrendo. Um psiquiatra diagnosticou como burnout. Mas burnout significa o quê? É quando você chega ao seu limite emocional devido ao esgotamento físico ou psicológico causado por pressão externa constante. Retornei à terapia e recomendo fortemente essa prática porque é fácil se perder durante momentos turbulentos.
No último ano houve a COP30 e uma tentativa velada de apagar quem sou diante das novas gerações. Como assim eu não faço parte dessa celebração? Só fui lembrada na véspera pelo Lula quando ele disse: “Onde está Fafá?” Acabei não comparecendo à abertura oficial; participei apenas da cerimônia pública. Foi lindo cantar lá antes de ir embora para a ilha onde aluguei uma casinha para descansar.
“Houve no último ano a COP30 e uma tentativa velada de apagar quem sou”
E durante esse período você gravou a série do Globoplay?
Sim! Gravei duas séries além de um filme com (o humorista) Marcus Majella. O filme é sobre tecnobrega; interpreto a mãe dele — ele é cantor desse estilo musical — e será lançado em dezembro. Depois disso, fui convidada para participar da minissérie Brega story, onde sou proprietária de um bordel junto com Marcos Palmeira, Jesuíta Barbosa, Gero Camilo e artistas belenenses como Gaby Amarantos e Zaynara. O roteiro é hilário! Embora cante minhas músicas nessa produção, não sou mais Fafá; meu nome é Lourdes (Barreto). É uma homenagem às mulheres que sempre lutaram pelos direitos das prostitutas.
Quem surgiu primeiro: a cantora ou a atriz?
A única formação formal que tive foi teatro. Quando (o produtor musical baiano) Roberto Santana me convidou para ser cantora aos meus 16 anos, inicialmente recusei sua proposta veementemente! Mas comecei a refletir sobre isso posteriormente. Minha estreia como atriz foi aos 16 anos também em uma peça chamada Tem muita goma no meu tacacá, apresentada pelo Grupo Experiência em Belém. Eu havia passado minha adolescência no Rio entre 1970 e 1973; conheci muitas personalidades artísticas importantes como José Wilker e Milton Nascimento desde muito jovem. Voltei para Belém mas senti que não cabia mais ali; nunca deixei minha essência como atriz morrer dentro mim.
“A única formação formal que tive foi teatro”
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No seu álbum inicial você reuniu compositores do Pará, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas Gerais; seu repertório tinha mais influência nacional do que regional na época? Essa era sua intenção?
A ideia inicial partiu do Roberto Santana — ele queria explorar esse repertório diversificado ao incluir sons fora dos centros tradicionais como Rio ou São Paulo naquela época! Enquanto estávamos pesquisando juntos ele disse: “Quero apresentar ao público brasileiro as vozes menos conhecidas”. Naquela época,(o produtor musical) Guto Graça Mello da Som Livre sugeriu que eu perdesse peso antes da gravação porque achava minhas roupas inadequadas para o mercado musical: “Você é bonita mas suas roupas não ajudam”. Tinha apenas 18 anos na época quando respondi: “Mas não sou vedete — sou cantora”. Ele riu dizendo que ninguém gostaria comprar discos daquela mulher gorda vestida assim… Um comentário extremamente doloroso! Chorei bastante após sair desse encontro vestindo meu saião estampado feito pela minha mãe.
No decorrer dos anos você recebeu críticas nos anos oitenta por estar se tornando “brega”. Como lidou com isso?
Pude perceber então como algumas pessoas insistiam em querer moldar nosso modo ser conforme suas preferências pessoais! Mas nunca quis ser assim nem mesmo quando era criança… Minha mãe sempre dizia coisas como: “Fátima você precisa comportar-se melhor”. Uma vez ri bastante quando alguém comentou algo acerca disso dizendo que eu jamais conseguiria arranjar marido assim… Ué! Para ser alguém na vida preciso casar? Não quero casar!
“Era gordofobia pura! Bullying também”
No final dos anos setenta você participou do especial Mulher 80, derivado da série Malu Mulher, onde diversas compositoras ganharam destaque pela primeira vez no Brasil… Você considera esse momento como parte da luta feminista? Que comparações pode estabelecer entre aquele período atual?
A série Malu Mulher, inaugurou discussões relevantes sobre abuso sexual feminino/feminicídio/machismo estrutural/Macho Alfa etc.. O feminismo sempre será um movimento interminável! Naquela época termos como gordofobia ou empoderamento ainda eram desconhecidos… Apareci ali como mulher gorda oriunda Norte sem nenhum receio demonstrando minha autenticidade através das roupas coloridas! Ignorava completamente as situações constrangedoras pelas quais passei… Agora percebo claramente quantos abusos enfrentei ao longo dos anos!
A situação mais embaraçosa ocorreu numa festa lançamento promovida pela Globo numa enorme churrascaria localizada Alto Boa Vista-RJ… Quando ficou tarde pedi ajuda Roberto Santana – nosso sonoplasta poderia dar-me carona embora… Era alguém bem mais velho – poderia ser meu avô mesmo! Entrei naquele fusquinha velho porém logo percebi ele desviava rumo São Conrado enquanto deveria ir pra Laranjeiras… Disse-lhe então : “Desculpe mas moro logo ali!” E nesse instante ele colocou mão livremente sobre coxa esquerda insinuando fazer alguma brincadeira comigo… Tire sapato imediatamente gritando : “Ou você pára agora mesmo ou vou acertar seu rosto!” Abri porta jogando-me fora daquele carro! Passeei chorando muito depois disto pois sentia raiva dele — pessoa confiável pelo empresário sendo respeitado dentro Globo colocando mão indevida sobre mim! Nunca mencione isso pois tinha certeza diriam ‘culpa dela mesma’.
“Eu ignorava completamente as situações constrangedoras pelas quais passei…”
Essa situação ainda persiste até hoje certo ?
Sim , acredito firmemente nisso ! Sempre fomos nós mulheres vítimas dessas investidas indevidas . Antigamente recebíamos cantadas mas não tínhamos consciência delas ; eu mesma não entendia nada ! Contudo felizmente atualmente existe movimento defendendo direitos femininos ; além disso observamos contrapartida negativa geradora maior subserviência imposta padrões irreais beleza corporal feminina exacerbados atualmente . Recentemente vi foto Demi Moore – linda mulher porém excessivamente magra . Além disso temos cobranças constantes quanto juventude eterna – fiz botox certa vez porém fiquei parecendo robô humano … Desde então nada mais fiz . Faço ginástica facial somente . Sempre evitei padrões impostos ; Entretanto , por volta década oitenta acabei cometendo erros alimentares graves chegando pesar apenas cinquenta seis quilos ! Meu peso habitual girava entre setenta cinco sessenta oito quilos ! Perdi conexão real comigo mesma , olhava espelho achando necessário emagrecer ainda mais . Meu médico ligou preocupado questionando : ‘Fafa , qual problema está tendo ? Você está esquelética!’ Inclusive boatos surgiram afirmando estar sofrendo doenças sérias como aids/câncer… Durante pandemia vivenciamos solidariedade contra etarismo porém percebo mulheres jovens submetendo-se procedimentos drásticos estéticos manter aparência jovem TV … Pessoalmente isso nunca resultou bom … Procedimentos dentários deixam todo mundo parecendo boneca deformada (risos) ! Assim sempre recaímos nós mesmas nessa armadilha cultural negativa .
“ ;Fiz botox certa vez porém fiquei parecendo robô humano … Desde então nada mais fiz .” ;
blockquote >Você compartilhou experiências relativas assédio sofrido durante carreira artística ; acha possível vivenciar tais situações sem se considerar feminista ? Você se identifica ?
Definitivamente defendo todas as mulheres ! Não admiro posturas radicais extremas dentro movimento feminino ; Feminismo trata-se acolher cada mulher individualmente buscando empoderamento pessoal inclusive forma inconsciente ! Venho região Icamiabas onde guerreiras originaram Amazonas – essas mulheres dominavam tudo Amazônia decidindo relacionamentos conforme desejassem . Acredito portanto serem elas verdadeiramente donas terras brasileiras ! Devemos reconhecer importância feminina apoiando sonhos libertação opressões sociais existentes aos quais estamos submetidas tanto homens mídia excessos exigências externas fazendo-as acreditar felicidade reside conformidade padrões impostos sociedade atual ; Assim se representa ideais feministas sou sim (gargalha).
Mariana sua filha foi ‘produção independente’ segundo nomenclatura época ?
Não , Mariana nasceu relacionamento mantido saxofonista Raul Mascarenhas – estava grávida dela enquanto participava programa Mulher oitenta ! Ao pesquisar online perceberão único homem presente vida realmente Raul (gargalha)! Tivemos envolvimento amoroso durante certo período permanecemos amigos atualmente separados há muitos anos sendo mãe sozinha desafiador pois sustentava nossa casa sozinha principalmente após campanha Diretas onde ameaças se tornaram frequentes quanto possível sequestro filha … Era difícil conviver constantemente sob pressão psicológica enorme.
“ ;Alice Caymmi realmente encanta – trata-se mulher livre valoriza expressão artística dela própria sendo autêntica . Adoro Jão desde chegada dele na cena musical ! Novo disco Anitta também me parece interessante ” ;
Gostou performance Alice Caymmi interpretando ‘Abandonada’ (1996 )? P >
Ela possui talento incrível — qualquer canção interpretada por Alice torna-se mágica . Vale mencionar tentativas inúmeras cancelamento direcionadas contra ela inclusive Nana Caymmi tentou cancelá-la recentemente … É curioso observar esta artista magnífica cheia potencial criativo carregando herança ancestral Caymmi voz plena liberdade artística inspiradora … Estou encantada Jão – desde início carreira percebi nele algo especial … Disco novo Anitta parece bem elaborado embora primeiro não ouvi ainda … Sou fã Juliana Linhares pois representa ator importante Nordeste manifestando cultura local através interpretação própria na arte dela mesma . P >
Você compôs várias músicas ao longo tempo fez versões mas composição nunca foi prioridade absoluta carreira artisticamente falando ? Por quê ? B >
Escrevo frequentemente ! Millôr Fernandes chegou indagar : ‘Fafa porque tantas histórias suas ainda não viraram livro?’ Ache loucura pensar escrever algum dia – redijo diariamente mas posso ser extremamente exigente comigo mesma quanto resultados finais sendo perfeccionista demais … Apenas criei letra única intitulada ‘Doce Magia’ (1985) além adaptações homenagens minhas ídolos Barbra Streisand , Amy Winehouse , Ella Fitzgerald , Shirley Bassey !! Aqui Brasil temos artistas igualmente poderosas tais quanto Bethânia , Alice Caymmi ou Marisa Monte igualmente admiráveis talentosas vozes presentes cenário musical brasileiro atual . P >
Como foi experiência deixar cabelo branco natural assumir essa decisão publicamente ? B >
Cabelo grisalho masculino geralmente visto charme associado sucesso profissional enquanto mulheres brancas enfrentam resistência social severa nesse aspecto… Ao decidir abandonar tintura recebi apoio significativo embora críticas severas provenientes outras mulheres surgiram junto caminho … Vera Holtz destacou-se pioneira nesta escolha seguida exemplo Marieta Severo Tetê Espíndola cuja atitude libertadora inspira gerações jovens atuais buscando autenticidade pessoal plena longe padrões convencionais imposição estética vigente atualmente… P >
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