Kembra Pfahler ainda estava finalizando algumas das peças para The manual of action quando teve uma conversa com a ELLE, poucas horas antes da inauguração de sua primeira mostra no Brasil. A exposição acontece na galeria YHP (Yehudi Hollander-Pappi), localizada em São Paulo, e a abertura ocorreu na noite da última sexta-feira (25.09). Vestida com um macacão utilitário, batom vermelho e boné, a artista aplicava tinta verde em uma boneca que faria parte da exibição.
Mais tarde, seu visual mudou radicalmente. Com o corpo pintado de vermelho e uma peruca volumosa, Kembra realizou uma performance musical para um público que lotou o espaço. Essa transformação é uma marca registrada de seu trabalho desde os anos 1980, quando começou a se destacar na cena underground de Nova York. Em seguida, ela criou a banda The voluptuous horror of Karen Black, onde trouxe aos palcos personagens excêntricos, influências do rock e uma estética ousada que se tornou sua assinatura.
A performance de Kembra na galeria paulistana Yehudi Hollander-Pappi
Instagram @kembrapfahler_
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<pCom o passar do tempo, Kembra passou a denominar seu repertório como The manual of action. “Às vezes, os artistas criam seu próprio vocabulário visual”, afirma. O título surgiu como uma forma de descrever seus autorretratos, desenhos figurativos, canções e outras criações que vinha desenvolvendo. “Era simplesmente uma maneira de expressar o que eu estava criando.” Agora, esse nome também será utilizado em seu próximo álbum.
A música sempre fez parte da vida da artista de 65 anos. Quando era adolescente em Los Angeles, Kembra vivenciou a primeira onda do punk na cidade e assistiu a shows ao vivo de bandas como The Cramps, X e The Screamers. “Minha vida sempre teve uma trilha sonora.” Com o tempo, começou a incorporar faixas de outros artistas em suas performances até que sentiu a necessidade de criar suas próprias músicas. “Queria compor sons originais para acompanhar minhas imagens e então comecei a cantar.”
Confira abaixo mais sobre essa artista multifacetada que está exibindo vídeos, fotografias, desenhos e esculturas na mostra em São Paulo:
O corpo em primeiro plano
Marcelo Mudou / @otimokarater
A pintura corporal surgiu como uma resposta ao contexto social em que cresceu. Na Los Angeles da sua juventude, ela enfrentou um ambiente obcecado por padrões estéticos relacionados ao “corpo perfeito”. Também ouviu comentários sobre sua aparência. “Diziam que eu seria interessante se perdesse uns cinco quilos e pintasse o cabelo de loiro”, recorda. “Isso me parecia extremamente ofensivo e quis fazer algo diferente.”
Por esse motivo, a nudez é um elemento recorrente em seu trabalho, frequentemente acompanhada por adereços discretos e influências dos períodos que passou no Japão. Entre essas referências está o butô, estilo de dança que conheceu através de Samoa Moriki, um colaborador constante. “Algumas mulheres escurecem os dentes e as sobrancelhas como sinal de status matrimonial; isso me fascina.” Esses elementos frequentemente aparecem nas personagens que ela encarna.
Kembra com Laura Diaz (@_carneosso).
Marcelo Mudou / @otimokarater
Sua paixão por filmes B de terror da década de 1970 também contribuiu para sua estética única. Dentre as atrizes que mais a impactaram estava Karen Black (1939-2013), conhecida por alternar entre essas produções e grandes sucessos de Hollywood; seu nome acabou inspirando o título da banda. “Ela não se parecia com ninguém e havia uma poesia em sua atuação; era uma profissional séria e maravilhosa.”
Musa de si mesma
@christiandeathfonte
Para Kembra, estar à frente das câmeras ou no palco não é uma questão relacionada à vaidade. “Não me sinto confortável pedindo que outros façam algo se eu mesma não tiver experimentado antes; isso é muito difícil.” Ela aparece frequentemente em suas obras e fora delas tornou-se musa para grandes nomes da moda, como o estilista Rick Owens.
Os dois se conheceram ainda jovens em Los Angeles no início dos anos 1990, antes do lançamento da marca homônima de Owens. Kembra acompanhou os primeiros passos da carreira dele e foi fotografada ao lado dele por Annie Leibovitz em 2001. “É fascinante ver como ele trabalha com formas corporais para criar silhuetas”, afirma. “Rick é um inventor; ele cria formas incríveis em suas roupas e desfiles.”
Kembra com Rick Owens.
Instagram @kembrapfahler_
<pAnos depois, ambos colaboraram em uma coleção inspirada nos desenhos dela; essa parceria levou seu universo visual a camisetas, jeans e jaquetas entre outras peças. Ao longo do tempo, Kembra também trabalhou com designers renomados como Thierry Mugler e Alessandro Michele (ex-Mugler). “Amo moda porque faz parte da nossa vida cotidiana; as roupas são uma forma poderosa de expressão artística.”
Rockstar cult
A banda The voluptuous horror of Karen Black.
Instagram @kembrapfahler_ / Bob Krasner
Com The voluptuous horror of Karen Black, Kembra teve que se acostumar ao papel de vocalista. No início, o microfone era intimidante para ela: “Nunca tive o desejo de ser famosa ou me tornar uma grande musicista.” A liberdade encontrada no punk californiano – onde as bandas subiam ao palco sem dominar totalmente seus instrumentos – tornou-se sua inspiração: “Não precisa ser perfeito; gosto do desconforto e das pessoas que não tentam apenas entreter.” Isso é o que realmente lhe interessa.
Suas apresentações combinam punk rock com pintura corporal elaborada, figurinos extravagantes, coreografias vibrantes e cenários artesanais. Para dar conta dessa intensidade física durante os shows, desenvolveu um regime próprio chamado gothletics. “Basicamente significa evitar roupas esportivas enquanto você faz alguma atividade antes da meia-noite; só precisa elevar os batimentos cardíacos pelo menos uma vez ao dia”, esclarece.
Para sempre underground
Kembra com Matheus Yehudi e Sandra Oksman.
Marcelo Mudou / @otimokarater
Ainda que tenha ganhado visibilidade ao longo dos anos num contexto cultural cada vez mais mainstreamizado pela cultura underground, Kembra acredita firmemente no poder desse movimento: “É um espaço difícil de alcançar; você precisa se esforçar para descobrir onde está essa porta.” Para ela ser parte dessa cena implica estar presente fisicamente e buscar novos talentos fora do mainstream.
Suas performances costumavam provocar reações intensas além do simples estranhamento: “As pessoas jogavam garrafas em mim ou gritavam ofensas sobre minha aparência devido à maquiagem antes disso tudo virar tendência; era perigoso às vezes.” Atualmente sua interação com o público também ocorre nas redes sociais; Kembra utiliza Instagram para divulgar seu trabalho e conectar-se com fãs embora tenha interesse limitado pela plataforma: “As pessoas acham difícil alcançar figuras como eu mas nunca tentam realmente contato; talvez elas não estejam se esforçando bastante,” brinca.
O que vem por aí
Instagram @kembrapfahler_
Ainda entusiasmada após mais de quatro décadas dedicadas à arte, Kembra continua aberta às surpresas: “Adoro quando algo inesperado aparece diante dos meus olhos – pode ser um talento novo ou até mesmo ouvir uma música linda.” Esse sentimento pode surgir ao testemunhar alguém realizando algo pelo qual tem verdadeira paixão: “Quando vejo alguém dedicando-se intensamente ao que ama isso me renova.”
São Paulo parece ter deixado essa impressão nela. Apesar da breve estadia na cidade, já planeja retornar para explorar mais: “Quero passar um mês aqui e conhecer tudo.” Da primeira visita restaram lembranças positivas da arquitetura vibrante das ruas repletas de árvores coloridas: “Nunca estive em lugar como São Paulo; é estranha mas bela.”
The manual of action : até 17 de outubro na Galeria Yehudi Hollander-Pappi
(Alameda Lorena, 1295 – Jardins – SP). De terça a sexta-feira das 11h às 19h; sábados das 11h às 17h.
