Compreender a Gucci sob a direção de Demna pode ser um desafio inicial, uma vez que ele apresenta representações de estilos e gostos frequentemente vistos como excessivos e menos sofisticados. Embora as roupas não sejam necessariamente assim, o foco reside na imagem e, principalmente, no styling.
A coleção cruise 2027 foi revelada ontem (16.05) em Nova York, especificamente em Times Square. A escolha do local possui várias justificativas. A mais evidente é que os Estados Unidos representam o maior mercado consumidor de produtos de luxo, sendo responsável por uma parte significativa da receita das marcas desse setor. Além disso, Manhattan marca a inauguração da primeira loja internacional da Gucci em 1953. Por último, a capital cultural da cidade está intimamente relacionada ao consumismo.
Antes do desfile, telões na Times Square e transmissões ao vivo exibiram diversos vídeos promocionais dos produtos da Gucci, que incluíam itens como água mineral, academia, avião, condomínio residencial, suplementos alimentares, linha para pets, automóveis e hotelaria. Alguns desses anúncios eram fictícios, enquanto outros apresentavam produtos reais como joias e roupas íntimas.
Gucci, cruise 2027.
Foto: Divulgação
Gucci, cruise 2027.
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Gucci, cruise 2027.
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Na sua estreia como diretor criativo da Gucci em setembro de 2025, Demna utilizou o cinema para apresentar uma visão da marca que se distanciava dos produtos específicos e enfatizava um estilo de vida. Para a coleção cruise 2027, ele adota uma abordagem similar através da publicidade.
Durante o desfile, foram apresentados diversos personagens típicos do cotidiano nova-iorquino, alguns até clichês. Entre eles estavam as ladies who lunch, executivos com terno e mochila, a jovem com seu tapete de yoga e frequentadores da Broadway. Essa abordagem não é nova; a observação social sempre foi parte do processo criativo de Demna. O que se altera é o filtro utilizado – e a marca para qual ele está criando.
No contexto da Gucci, essa análise antropológica dos arquétipos é moldada por uma noção de glamour e sensualidade tipicamente italianos. A respeito do cruise 2027, o designer destaca que o foco está em peças fundamentais para a linguagem estilística da marca: casacos marinheiros, trench coats, ternos, camisas e saias lápis. Estas peças foram especialmente destacadas na apresentação – notavelmente as opções de alfaiataria em versões ajustadas ou oversized.
Gucci, cruise 2027.
Foto: Divulgação
Gucci, cruise 2027.
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Gucci, cruise 2027.
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Em comunicado à imprensa, Demna expressou seu desejo de criar algo que refletisse a realidade nova-iorquina. “Queria apresentar esta coleção através de pessoas que você poderia encontrar nas ruas; indivíduos com suas próprias formas de se vestir.” Isso se reflete no casting diverso que inclui figuras como Paris Hilton, Cindy Crawford, o jogador Tom Brady e a artista Rory Gevis.
A atitude na passarela enfatiza a diversidade desejada pelo estilista. Às vezes acompanhada por ironia e irreverência – evidenciada nos gestos exagerados ao carregar bolsas no cotovelo ou segurar telefones nas mãos – assim como nos casacos de shearling com aparência de pele e nas roupas superjustas.
Gucci, cruise 2027.
Foto: Divulgação
Gucci, cruise 2027.
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Gucci, cruise 2027.
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Não está claro se a proposta visa satirizar o mercado de luxo (um aspecto muito relevante nas campanhas publicitárias) ou se busca conectar-se com um público menos atento aos códigos tradicionais de elegância. Também é incerto se essa estratégia será comercialmente viável; apenas o tempo poderá responder a essas questões.
De qualquer forma, essa visão oferece uma perspectiva intrigante e distinta do que geralmente vemos no setor. Provoca reflexões e coloca a Gucci em destaque nas conversas contemporâneas sobre moda.
